O que as lideranças femininas têm a dizer sobre o mercado

Mesmo com os avanços nas políticas de inclusão, as mulheres ainda enfrentam barreiras estruturais para conquistar espaços adequados no mercado de trabalho. A dificuldade para se encontrar lideranças femininas, por exemplo, é parte de um cenário muito maior de falta de equidade e de inclusão social. Na contramão desse cenário, conheça líderes que conquistaram espaço em mercados dominantemente masculinos. 

Deborah Palacios Wanzo se tornou cofundadora da Whatslly, startup de integração tecnológica com foco em relacionamento B2B e B2C, em 2020. Tanto a sede da empresa quanto seu sócio, Yanir Calisar, ficam em Israel, enquanto a executiva lidera do Brasil a expansão global da marca. Quando tomou para si o desafio de transformar uma startup local em uma referência internacional na integração entre instant messaging e CRM, Deborah estava vivendo uma gravidez. 

“Enquanto eu me reestruturava para viver a maternidade, também estava estruturando do zero uma empresa para atravessar oceanos. Isso foi um aprendizado muito grande, que influenciou a cultura da Whatslly desde o início. Eu tenho uma carreira que começou em áreas como varejo e bens de consumo, e tem sido uma descoberta a experiência de ser uma mãe empreendedora que assume a liderança de uma empresa de tecnologia. São vivências no dia a dia dos negócios que só quem é mulher sabe. Nesse sentido, é também uma responsabilidade e um presente poder fazer isso e representar o universo feminino nas áreas de negócios, tecnologia e inovação, tão dominadas pelos homens”, conta.

 

Zaima Milazzo é Diretora de Inovação na Algar Telecom. Também é a presidente do Brain, centro de inovação fundado pela empresa onde trabalha há 24 anos. Para ela, a sub-representação das mulheres no universo da tecnologia e da inovação, e das Ciências Exatas em geral, é uma realidade incontestável, mas que não tem nenhuma relação com capacidade intelectual, embora esse preconceito permaneça.

“Ainda que hoje persista a ideia de que meninas não tenham uma habilidade natural para essas áreas, e sim para Humanas, isso já é comprovado como mito por diversas pesquisas. Mas, então, o que as impede? Essa questão me intriga muito desde que me tornei uma liderança feminina inserida nesse contexto tão desigual. E uma das respostas é que há preconceitos e crenças limitantes que tiram das mulheres desde cedo o sonho de seguir com carreiras em Exatas. Precisamos, portanto, batalhar por uma mudança cultural que começa já na infância”, explica Zaima. 

 

Tereza Santos é CEO da Sympla. Começou sua carreira cedo, na empresa de seu pai. Depois migrou para o setor de Contact Center, no qual trabalhou durante mais de nove anos, desde o atendimento ao cliente até se tornar gerente comercial. Depois, de uma passagem como executiva de negócios, decidiu se afastar do trabalho para viver a maternidade. Passou dois anos focada nos cuidados de sua filha. Quando retomou a carreira, brevemente passou de gerente a diretora de operações, cargo que ocupou por mais de três anos. Desde abril de 2021, é CEO do maior marketplace de eventos, cursos e atrações culturais do Brasil. 

“É muito comum que vejamos no setor de tecnologia, assim como o de eventos, uma liderança composta em sua maioria por homens, então me orgulho muito em ser mulher, mãe e CEO de uma empresa com o porte da Sympla. É muito importante que nós mulheres cada vez mais conquistemos nosso espaço nesses mercados, e que mostremos que somos tão capazes quanto eles de gerir uma empresa de tecnologia com muito espaço para as mulheres crescerem nas áreas de inovação, tecnologia e cultura”, afirma Tereza.

 

Isadora Gabriel é diretora de HR Operations na Movile, investidora estratégica de empresas como iFood, MovilePay, PlayKids, Afterverse, Sympla, Sinch, Zoop, Mensajeros Urbanos e Moova. Com uma larga trajetória profissional marcada por atuações em grandes corporações do setor financeiro, ela considera que ser mulher no século XXI é um desafio, mas também um verdadeiro privilégio. 

“Tantas outras mulheres já lutaram para que a nossa sociedade tenha dado passos importantes na agenda de equidade de gênero, que me sinto otimista com o que podemos construir pela frente. Temos referências cada vez mais fortes, de mulheres realmente inspiradoras, e não me refiro apenas aquelas do mundo corporativo, mas às muitas mulheres batalhadoras, que são mães, que muitas vezes sustentam suas casas sozinhas, são o pilar fundamental de suas famílias, educam seus filhos e filhas, e ainda fazem o bem para a comunidade ao seu redor. Todas nós, mulheres, mas também a sociedade em geral, tem uma missão diária de preparar as próximas gerações no caminho da inclusão, da equidade e da justiça”, ressalta a executiva. 

 

Mariana Eyer é COO da plataforma de treinos online Queima Diária. Está com a empresa praticamente desde o começo do negócio, em 2015. Entrou em 2016, quando a Queima Diária dava seus primeiros passos para a consolidação do negócio no segmento do fitness digital. É uma voz feminina potente dentro da empresa, que contribui com um ambiente de mais diversidade, além de ter uma atuação profissional estratégica para o crescimento do negócio da Queima Diária, atualmente com mais de 400 mil alunos ativos na plataforma e, aproximadamente, 200 colaboradores.

“Apesar das empresas investirem mais na formação de lideranças femininas atualmente, alguns segmentos, como o de tecnologia, ainda possuem um cenário de baixa representatividade feminina, com pouca formação técnica de mulheres na área, aumentando o desafio de alcançar equidade, considerando que a participação das mulheres nesse mercado no Brasil é de apenas 20%, segundo o IBGE. Minha atuação na Queima Diária é, em certa medida, um incentivo para que outras mulheres na empresa continuem lutando e conquistando espaços de destaque.”

 

Cristiane Takahashi é Gerente Executiva de Projetos na Tereos, uma das líderes mundiais na produção de açúcar, etanol e bioenergia com operações no Brasil. A profissional atua há 16 anos na companhia – ela ingressou em 2006 como Trainee. A área liderada pela executiva desempenha papel estratégico para que as sete unidades da Tereos no Brasil obtenham resultados cada vez melhores em todas as etapas da produção por meio da análise de indicadores de desempenho e da identificação de oportunidades de melhorias de processos, visando aumentar a eficiência e produtividade nas operações, reduzindo custos. 

"É gratificante construir minha trajetória profissional em um setor tão relevante para a economia do país. É importante que as empresas do setor se comprometam com iniciativas para alavancar a carreira de mulheres, investindo em iniciativas para aprimorar a participação feminina em todas as frentes. Recentemente, por exemplo, assumi um novo desafio como Gerente Executiva de Projetos, com foco na implementação dos novos processos e governança do COA (Centro de Operações Agroindustriais). Na Tereos a participação de mulheres nas operações é assunto sério, além das iniciativas internas, a empresa assumiu o compromisso de, até 2030, alcançar 15% de mulheres na força de trabalho e, no mesmo período, chegar a 17,5% de posições de liderança sendo exercida por profissionais do sexo feminino.”

 

Natália Yuki é diretora de Estratégia e Operações na Turing, startup de recrutamento de desenvolvedores para atuarem de forma remota para grandes empresas nos Estados Unidos. Com grande atuação em consultorias reconhecidas internacionalmente e passagem na indústria de medicina diagnóstica, a executiva ressalta como é importante encontrar um ambiente diverso e que permita a troca intercultural, além de valores e propósitos sólidos, fatores que não podem ser dissociados do apoio à presença feminina nas organizações. 

Na Turing, a brasileira – que hoje vive na Alemanha – viu a diversidade como uma das principais características da companhia. “Os fundadores são da Índia, a empresa está sediada nos EUA e temos membros de equipe de todo o mundo. Na equipe de liderança, encontramos pessoas como eu, mas também pessoas da China, Índia, EUA, Croácia e assim por diante, e para um startup, isto é incrivelmente diversificado. Acredito que o fato de me aventurar e não enxergar fronteiras me ajudou a ter a vida que eu queria e não me deixar definir pela minha raça, gênero, geografia ou qualquer outra categoria. É claro que sou extremamente privilegiada e o contexto social e econômico tem um papel fundamental em minha vida e nas trajetórias de vida de todos.”

 

Tatiana Rezende é a CFO da Nuvemshop, plataforma de e-commerce líder na América Latina. Ela está na empresa desde abril de 2020, quando foi contratada grávida de cinco meses. Logo que assumiu a posição, a executiva liderou uma das maiores rodadas de investimentos da startup e, em 2021, atuou na rodada que tornou a Nuvemshop unicórnio. Com mais de 10 anos de  experiência no mercado financeiro, incluindo atuação nos Estados Unidos, Tati também lidera o comitê de Diversidade e Inclusão da Nuvemshop e é uma representante da comunidade LGBTQIA+. 

 "Buscar novas oportunidades estando grávida não foi uma decisão fácil. Mas, o fato de estar a poucos meses do nascimento do meu filho não pesou na decisão mútua de parceria entre a Nuvemshop e eu. Fui contratada pelas minhas habilidades e experiências adquiridas ao longo da minha trajetória. Espero que, cada vez mais, as empresas estejam abertas para reconhecer o profissionalismo das mulheres, principalmente em posições historicamente ocupadas por homens”, afirma Rezende.

 

Juliana Velozo, vice-presidente regional de vendas da Tableau, comentou sobre o desafio que foi se posicionar e se fazer ouvir durante a sua carreira dentro de um ambiente predominantemente masculino: "Comecei minha vida profissional em multinacionais aos 16 anos. Diante de todos os grandes desafios de ser uma mulher muito nova, o que mais me lembro é de como, em sessões de feedback, os pontos listados eram menos sobre minha performance no trabalho e mais sobre como eu deveria me portar de uma forma mais feminina e que não era de bom tom que eu me posicionasse de uma forma tão firme em reuniões pois isso poderia prejudicar minha carreira”, compartilhou.

A executiva diz que percebeu o impacto que sua personalidade curiosa e questionadora provocava muito mais do que as ideias e argumentos que eram questionados pois os homem se sentiam desafiados. Ao longo do tempo, entendeu que esse comportamento não era diferente do de seus colegas, que eram incentivados a participar e não alertados sobre como esse comportamento poderia prejudicar suas carreiras. “Mais de 20 anos depois, ainda vejo situações de mulheres que se posicionam, lutam e discordam sendo julgadas no mercado de trabalho. Por isso, cada vez mais, nós mulheres devemos apoiar umas às outras.”

 

Patrícia Campos é a diretora de Gente e Gestão da MAG Seguros. Psicóloga, com especializações em gestão de negócios, gestão de pessoas e gestão da educação corporativa, atua há mais de 20 anos em Recursos Humanos e área comercial, em recrutamento e seleção de equipes e principalmente na formação e desenvolvimento de líderes e autônomos – ultimamente, com grande foco no público feminino. Faz questão de ajudar outras a trilhar seu caminho através de uma série de ações da MAG Seguros que ficam sob sua responsabilidade. “A MAG tem quase 1.500 colaboradores, e a maioria do seu quadro composto por mulheres, que representam 57% do total dos nossos colaboradores. Elas também ocupam hoje metade do nosso quadro de lideranças, em nível de gerência, coordenadoria e afins”, informa Patrícia.

Uma das ações que Patrícia faz questão de conversar à respeito é o projeto Impulsionando Mulheres: ele é parte das entregas do Plural, programa de fomento à diversidade da MAG. O programa tem como principais objetivos alavancar o desenvolvimento das líderes da companhia, proporcionando a possibilidade de assumir posições ainda mais estratégicas, além de ser uma iniciativa que contribui diretamente para ampliar os resultados positivos que a equidade de gêneros promove. “Medimos a efetividade das nossas ações não apenas nos números de mulheres na organização, mas também o quanto essas mulheres tomam frente de projetos de novos negócios, além também das promoções. Sempre fazemos uma análise para buscar o número de mulheres que são responsabilizadas por novas linhas de negócio ou por novos projetos; e o quanto essas mulheres estão no nível de tomada de decisão e de reuniões de influência que vão direcionar o caminho da empresa. São alguns dos indicadores claros do efeito das mulheres na gestão MAG”, conta ela.

A equidade de gênero está na agenda de trabalho da Mars há vários anos. Após alcançar 40% de mulheres em posições gerenciais, a Mars assumiu o compromisso global em relação à igualdade de gênero nas posições de alta liderança, e busca alcançar 100% de equilibrios nestas posições. A empresa acaba de anunciar a movimentação de Cristiane Albuquerque para o cargo de Diretora de Vendas e Demanda Estratégica na divisão de chocolate, gomas, balas e “snacks” da empresa no Brasil. Com uma sólida e reconhecida carreira, Cristiane liderou as áreas de Compras e Supply Chain, sendo este seu último cargo antes de assumir a nova posição. 

“Assumo essa nova posição, entendendo a relevância do meu papel na continuidade de nossos compromissos em relação a diversidade e inclusão” – comenta a executiva. Já a área de Assuntos Corporativos é liderada por Mariana Lucena, que possui vasta experiência em Relações Governamentais, Gerenciamento de crises e Relações com a Mídia. Para Mariana, “trabalhar na gestão da reputação de uma empresa que visa ter um impacto social positivo e valoriza as vozes das mulheres é de grande satisfação. Me sinto privilegiada em estar em um ambiente confortável, com propósito e onde possa ser eu mesma”, finaliza.

Entre as iniciativas da empresa, está o #HereToBeHeard, plataforma global que em 2021 ouviu mais de 10.000 mulheres ao redor do mundo, e hoje compartilha as descobertas com objetivo de criar mudanças positivas duradouras para as mulheres em seus locais de trabalho, comunidades de fornecedores e mercado.

 

Salete Da Hora é diretora de Marca, Comunicação e Sustentabilidade da CTG Brasil, uma das líderes em geração de energia limpa no País. Ela, que teve a oportunidade atuar em vários projetos desafiadores e fundamentais para a sua trajetória pessoal e profissional, se considera uma exceção no mundo corporativo.  “A minha história profissional não é a história da maioria das mulheres, ainda mais uma mulher negra. Por isso, entendo que a barreira a ser superada é a que impede outras mulheres de ocupar posições de destaque nas organizações. Esse é meu propósito”, diz. 

Salete também chama a atenção para o reflexo da presença cada vez maior de mulheres no mercado de trabalho em todos os setores. Ela cita a última pesquisa ‘Estatísticas de Gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil’, divulgada há um ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O estudo revela que embora o número de mulheres com curso superior já supere o de homens no País, elas ainda são minoria nas chamadas ‘carreira STEM’, que são às ligadas a Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática. 

“Essa é uma questão que precisamos enfrentar se quisermos ampliar a participação de mulheres no mercado de trabalho, além de garantir o desenvolvimento e crescimento dessas profissionais. É muito comum termos mais mulheres nos primeiros níveis da organização do que nas posições de liderança. Promover mulheres e assegurar uma gestão mais diversa, garante que sejam criadas políticas e práticas para acelerar esse processo. Essa maior representatividade de mulheres nos cargos de gestão cria uma perspectiva nas profissionais mais jovens. Recentemente contratamos uma especialista que só topou trabalhar na CTG Brasil porque havia mulheres na diretoria e ela se enxergou naquela posição no futuro. Parece uma bobagem, mas diversidade de gênero aumenta a atração e a retenção de talentos”, afirma a diretora da CTG Brasil. 

Para que as marcas cumpram objetivos de diversidade, respeito e inclusão, suas lideranças, sobretudo no caso das mulheres, precisam muitas vezes construir esse caminho por conta própria. Como afirma Zaima Milazzo, da Algar Telecom, “temos que batalhar por iniciativas que estimulem o acesso das mulheres em cursos universitários, por eliminar a discriminação de gênero nas horas da contratação e promoções, por programas de capacitação voltados para o público feminino, pela equidade de aportes em startups fundadas por mulheres e por condições favoráveis para que permaneçam nas empresas e cresçam, o que inclui um ambiente de trabalho apropriado, que as valorize e apoie, principalmente na maternidade.”

A equidade é uma conquista diária. No agronegócio, 93% das brasileiras que atuam no setor têm orgulho de trabalhar no campo ou na indústria agrícola. Além disso, quando o assunto é desigualdade de gênero, 79% afirmam que a situação de hoje é melhor que há 10 anos, mas para muitas esse ainda é um desafio na cadeia do agronegócio. Os dados, obtidos por meio de pesquisa nacional conduzida por Agroligadas, com o apoio da Corteva Agriscience e ABAG (Associação Brasileira do Agronegócio), reforçam que a participação feminina no agro ainda é um assunto em constante debate. 

No setor de venture capital, que inclui os fundos que investem em startups como a Whatslly, por exemplo, empresas com lideranças femininas receberam apenas 2,7% do total investido em 2019, segundo a Fortune. Mas isso não tem impedido que cada vez mais mulheres sejam responsáveis pela fundação e direção de novos negócios. Aliás, o Global Entrepreneurship Monitor nos mostra que, desde 2016, elas já são maioria no Brasil: 51% dos novos negócios no país são iniciativas delas.

São elas que estão mudando a realidade do mercado de tecnologia. “Eu acredito no empoderamento, em valorizar as pessoas e investir no potencial delas. A Whatslly tem a diversidade em seu DNA, assim como o trabalho remoto. Já nascemos multiculturais e sem fronteiras geográficas, e pretendemos estimular isso. Seja pelo exemplo de liderança ou pela cultura corporativa como um todo, a ideia é contribuir para dar maior representatividade e inspirar outras mulheres a conquistarem seus sonhos”, completa Deborah Wa